segunda-feira, 23 de Abril de 2012

Ou o homem que vende poemas na rua

Aurora Matinal

"Como na palidez de uma tarde
Outonal, qual monge tibetano
me encerro em mim, ao de leve
meditando... fim de tarde às portas
da noite a solidão é mais negro e mais profano.


E penetrando na noite
baldados que foram os sonhos
de mais um dia de favas contadas
com pezinhos de lã me chega a
deserta madrugada, tão negra e calada,
e eis que rompe a manhã clara e
soberba, e escusados os meus ais, em
frente à natureza agradeço aos Deuses
por mais um dia de vida.


No seu trilho de ave a manhã
clareia, e como fresca flor se 
aquece e me dá ânimo para
que enfrente mais um dia vertical
que eu quisera com horizontes
sob a luz da aurora matinal."

Silvestre

terça-feira, 27 de Setembro de 2011

Prometeu prometeu

"Entre cacto e gato há um vaso de versos,
no branco das palavras nasce a lua.

(Todos nós, minha amiga, somos irmãos conversos
virados para dentro, para a nossa rua;
só que nuns acontece ter o tejo aberto
um sossego inaudível que nunca será teu.)

No mais, é mais rochedo que deserto,
é mais arqueologia do que minicéu.
Por mim, transformo as letras numa sopa
- de cultura, ora pois, onde me nasço todo
sem rede e sem redil, só olhos e só boca:
nas palavras escavo cavernas segredadas,
concavidades mansas onde há barcos e couves.

Não agrado a ninguém. E tu, se agradas,
é neste meu martelo que não ouves.
No mais, é mais barulho que varejo,
a perna assim, um braço assado, ao fogo.
Porque eu é que te vivo e que te vejo.
Que te crio, que te mato, que te morro."

Pedro Támen

quinta-feira, 25 de Agosto de 2011

"Aqueles que passam por nós não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós."

Antoine de Saint-Exupéry

segunda-feira, 15 de Agosto de 2011

Poema ao(s) meu(s) amor(es)

Sabes,

Se o mundo fosse todo como tu
E se se lembrasse de mim com a mesma alegria com que tu te lembras.
Se o mundo me mimasse
E se risse comigo como tu ris.
Se o mundo fosse veias a pulsar vida e força como tu
E se fosse braços a remarem com a mesma coragem contra a maré.
Se o mundo me desse as mãos
E me agarrasse com a mesma vontade com que tu me agarras.
Se o mundo fosse vento
Se o vento fosse boca
E se a boca fosse a tua e me beijasse a cada sopro,
O mundo seria flores a brotarem dos meus olhos,
Os meus braços teriam a leveza dos ramos das árvores a suportarem os pássaros nos intervalos do voo
E as minhas palavras teriam a bravura das correntes de água a descer o rio.

Se o mundo fosse todo como tu
A minha língua pintaria céus cheios de cor,
Os meus cabelos brincariam com todas as crianças, desenhariam berços em traços profundos e embalariam todos os choros.
Se o mundo
Esse mudo lá fora, em que a seiva apodrece e se desgasta,
Fosse todo como tu
Seria magia tudo o que existisse.

Mas lá fora são tantas as cordas que prendem as mãos
Os caminhos e estradas de vidas de cão
Porque o mundo não é como tu
E tu,
Tu não és como o mundo,
Esse mundo de fendas, esse mundo sem chão.

Tu és
Areia da praia, coluna de ar, sumo de amora, chave da porta, pele a sarar.
És o ponto mais alto, o ponto único, o ponto supremo,
O ponto final.

E ninguém te diz
E ninguém te escreve melhor do que eu
Porque ninguém escreve melhor do que eu. Ninguém.
Ninguém escreve melhor do que eu
Quando trago o teu nome entre os dedos
Quando te trago inteiro na alma
E és tu todo o ar, toda a garra a correr-me no sangue, toda a inspiração.

Raquel Morgado

terça-feira, 19 de Janeiro de 2010

Adiante!

“O que é preciso para que se grite: adiante!”*

Vemo-nos por aí,

Nelson

*por Friedrich Nietzsche

quarta-feira, 18 de Novembro de 2009

Alma de Sabão

«Era Julho. O sol ardia os olhos – inflamava. O ar era feito de ondas de sol, correntes de calor: bafos quentes. Pegaste no balde preto de plástico que tinhas junto ao cão, no quintal. O cão deitado à sombra – inerte. O balde cheio de água, à sombra, com margaridas brancas. Um ramo enorme de margaridas brancas atadas com cordão. Deste-me um pano já cansado do caminho e detergente, que segurei religiosamente nas minhas mãos. Nas minhas mãos pequenas. Ao sairmos fechaste o portão cinzento com força, com barulho – não fosse o cão sair. Descemos a rua. Podíamos descer a rua de olhos fechados – a rua já nos conhece. A rua sabe para onde vamos e leva-nos embaladas. Assim que passamos o portão de ferro chegamos. Eu passei o portão de ferro: cheguei. O porteiro não se vê mas sente-se. Peço-lhe licença para entrar. Corro. Corro sempre em direcção àquilo que conheço – sei exactamente o sítio para onde vamos e o que vamos fazer. Corro como quem brinca e vou feliz. Chego primeiro, vens mais atrás. Caminhas no teu passo de mulher que trabalha tanto. Olho para ti ao longe e grito-te a dizer que cheguei, que cheguei primeiro, que cheguei antes de ti. Sorris. Olho para ti a aproximares-te: tens rugas e és bonita. Pousas o balde no chão e pedes-me para ir buscar água em baldes pequenos, outrora de tinta, que estão à entrada, junto ao portão. Eu sinto-me importante porque me sinto útil e vou. A água na torneira corre enérgica, ruidosa ao cair no balde. Balde que vai meio cheio. Já tinhas tirado as flores velhas e a água suja, quente. Molhas o pano na água que te trouxe, pões sabão – há bolhas de sabão no ar por um instante – e começas a limpar. Esqueces-te sempre do essencial para mim, por isso é que, enquanto preparas as margaridas brancas e as distribuis simetricamente, eu agarro no pano e acabo o trabalho. Limpo a imagem de Jesus na cruz até brilhar e dou-lhe um beijo. Parto o caule de uma das margaridas até ficar bem curto, bem pequeno, até a margarida ser só pétalas brancas e prendo-a junto à cabeça tombada de Jesus na cruz. Depois limpo a fotografia do avô e dou-lhe um beijo. Para mim é o mais importante – esqueces-te sempre do mais importante. Como retoque final enches o balde preto de plástico com água que lanças na campa branca do avô. Enches o balde de plástico preto com água que lanças na campa modesta do pai dos teus filhos. Enches o preto e plástico balde com água que lanças na campa eterna do teu marido. Colocas o detergente – sabão – e o pano no balde. Sou eu quem o leva agora para cima. Sacodes os pés, bates os pés e eu imito-te. Ao sair do portão sorrio ao porteiro que não se vê, como quem agradece a estadia. E sigo. Vens mais atrás. Olho para ti e és uma mancha escura na claridade. Subimos a rua. Podíamos subir a rua de olhos vendados – a rua já nos conhece. A rua sabe para onde vamos e empurra-nos. Abriste o teu portão cinzento com barulho – força – e o cão saiu. Pousei o balde no quintal. Era hora do lanche.
E este foi só mais um dia entre muitos dias iguais a este. Dias em que tu, já cansada do caminho, desces a rua e levas o balde, o pano e as flores contigo. Mas neste dia era Julho. Era Julho no seu esplendor: o sol ardia em chamas nos olhos. O ar era feito de ondas de calor, correntes de sol – bafos quentes. E eu ia contigo.»
E agora, avó?
Agora serei só eu a limpar a campa do avô.
A campa do avô que agora é a tua.
A vossa campa.
A tua campa, avó.
Esse pedaço de chão tão fundo,
Tão profundo,
Tão sem fim,
Onde dormes
para não mais te ouvir,
para não mais te ver,
para não mais te tocar.
E agora, avó?
Avó eterna. Avó que eu amo.
Quem limpa estas lágrimas que deito?
Quem limpa este sangue sem vida do meu coração?
Raquel Morgado

terça-feira, 25 de Novembro de 2008

Tenho a graciosidade rubra das papoilas quando és tu no meu caminho.
Tu, como vento a agitar, pétala a pétala, os meus dias.
Tenho a rubra graciosidade das papoilas a cada instante de ti
Na minha vida.
Tu, pedaço de chão que me seguras como destino,
Eu aninho-me em ti.
Tu, brisa mais perfeita que me rasgas o sorriso
eu aninho-me em ti

Sem tu saberes.

Raquel

quinta-feira, 22 de Maio de 2008

Via-se agora a paisagem

Via-se agora a paisagem, nos intervalos de descanso da neblina.
Eram as árvores e os caminhos onde já não passa ninguém, que mais te encantavam. Vi os teus olhos, agarrados à vidraça do trem, construírem vidas, erigirem muros e tectos e caiarem paredes, debaixo do sol, sob a protecção de dúzias de chapéus de palha, gargalhadas e copos de tinto.
Construías histórias como se conhecesses por inteiro cada pedaço de chão. E, no entanto, aquela terra não era tua. Mas o comboio guiava-te, como se te emprestasse mais um pouco de sonhos, mais um pouco de vozes, mais um pouco de fé. E à medida que se arrastava nas linhas, o teu pensamento arrastava-se com ele – por entre as falhas da neblina.
Viste a velha sentada junto ao poço. E viste as laranjeiras em flor, e o cão e a casa pequena e triste, toda em pedra, e o baloiço em ruínas, isolado entre o extenso arvoredo, mais atrás. O comboio apitava na despedida, como se celebrasse toda aquela existência. E os teus pensamentos eram livros abertos na ânsia da leitura, depois deste olhar. Traçaste os contornos de uma vida que não era a tua, mas com a qual o teu caminho se cruzou, por um instante, à passagem do trem. E a velha era pobre e infeliz, e era mãe de filhos que existiam longe. Tão longe que a distância de uma viagem de comboio não podia quebrar. Talvez os filhos tivessem emigrado. Sim, talvez. Talvez tivessem emigrado. Sim, acho que vi os teus olhos construírem esta história.

Vi os teus olhos guardarem tudo – tanto: fragmentos de chão nos intervalos da neblina.
E vi os teus olhos levarem contigo laranjas maduras que o tempo deixou.
Raquel

quinta-feira, 13 de Março de 2008

Lembras-te do teu nome?

Lembras-te do teu nome?
E das manhãs frias feitas de vento em que acordas tão só?
Eu não sei o teu caminho
Mas a tua vida tem cruzado estacas no meu a cada passo que dou,
A cada passo que dás.
E encontrar-te são nuvens de pó a desfazerem-se num grito
Como a noite.

Tão frias as manhãs do nosso encontro.
Feitas de flores orvalhadas pela voz de quem tu ouves.
E é tão grande o teu silêncio.
E é tão grande o teu olhar.
Perante a cruz.

Vens ainda contra o tempo.
Arrastas-te imponente sobre os dias
E trazes nas mãos os dedos que carregaste toda a vida.
Sabes tão bem o que suportam as mãos,
Que o esquecimento não apaga as lembranças
Dos teus dedos quando se dão.

Quantas mãos já foram tuas?

Num instante de lágrimas que não posso contar
Que não consigo contar,
As minhas mãos já foram tuas.
E nesse instante tu eras o silêncio de ternura num olhar.
Que eu jamais esquecerei.
Como o peso da lembrança desse dia, que carrego em mim como um caixão, e que não posso contar, que não consigo contar.

Trazias a aragem fria e húmida da madrugada nos cabelos
E o teu travessão de malmequeres de prata.
Vinhas, com o peso da velhice, ver a morte.
E encontraste-me a mim – vida e força a desfalecer na dor
no meu mundo todo a ruir em brasa,
Que o instante dos teus dedos nos meus segurou.

Na manhã mais triste de todas as manhãs do nosso encontro.
Eras tu, a meu lado, perante a cruz,
Eras tu, nome do meu nome,

Júlia.

Raquel

quarta-feira, 23 de Janeiro de 2008

Capitão

Está uma noite bonita demais para se morrer.

Raquel

domingo, 6 de Janeiro de 2008

De que lado viste chegar
o outono? Por que janela
o deixaste entrar? És tu quem
canta em surdina, ou a luz
espessa das suas folhas?
Em que rio te despes para sonhar?
É comigo que voltas
a ter quinze anos e corres
contra o vento até te perderes
na curva da estrada?
A quem dás a mão e confias
um segredo? Diz-me,
diz-me, para que possa habitar
um a um os meus dias.

Eugénio de Andrade
Este Natal foi feito de palavras únicas.

quarta-feira, 21 de Novembro de 2007

À velocidade de um momento suspenso

Ele disse: Esta noite vamos soltar todos os pássaros do mundo.

E ela respondeu de mãos atadas.

Raquel

terça-feira, 13 de Novembro de 2007

Todas as folhas são levadas pelo vento.

Raquel

quinta-feira, 1 de Novembro de 2007

Não chores

Não chores,
Esta noite.

Que eu não vou estar, para suster o manto de lágrimas de que te despes sem piedade.

Não chores,
De cada vez que sentes que as paredes desabam sobre o teu corpo,
Porque eu não existo sempre a teu lado para suportar todos os pedaços da queda.

E se o sonho se apaga,
Se há chamas a consumirem-te por dentro,
Se a carne te apodrece até à alma
E os ossos são tudo o que te resta

E se o que te resta não chega,
Não chores.

Que eu não vou estar esta noite para descer a cortina do teu palco sem chão.
Marioneta despida,
Não te lances tão fundo,
Que os meus braços são curtos demais para a inclinação.
E o abismo é tão forte que nos vence.

Não te entregues à corrente.
E não chores, esta noite.

Que eu não vou estar, para te segurar com mãos de espada e escudo.
Porque eu não existo sempre, inteira, a teu lado, para te guiar de cada vez que te perdes no medo.

Porque eu sou sem piedade,
Meu amor.

Raquel

sexta-feira, 5 de Outubro de 2007

Aos que vêm, o lento movimento de um beijo. E semântica, muita semântica.

Está vento.
Eu sei que está vento porque eu oiço a agitação desorientada dos pinheiros na confusão do ar. E vejo os meus cabelos em danças desregradas num jogo de sedução. Há dança e música nos meus cabelos quando o ar sopra mais forte: ballet. E caminho sobre pontas a teu lado.

Está vento.
Tu sabes que está vento porque tu conheces a reacção exacta dos meus lábios quando a brisa corre intensa. E vês os meus cabelos em danças lascivas de encontro a ti, em harmonia.

Componho-te a gola indecisa do casaco. Sorris.
E há aquele instante – feitiço – em que o vento se transforma num sussurro em Dó sustenido. É o instante do beijo. O instante em que erigimos à nossa volta muralhas de papel.
Raquel
Aos que vêm: este poema é vosso.

sábado, 29 de Setembro de 2007

Tão Frias as Manhãs

Reconheci-te pelo sabor.
E pela forma envolvente de emaranhares o cigarro entre os dedos.
Depois da nuvem de fumo, no meio de um bafo de palavras quentes, quando os olhos pedem o mundo – reconheci-te. Olhos cheios de sol ao anoitecer a pedirem tanto.
E as minhas mãos vazias a darem-se e a compreenderem-se por dentro

a cada instante de entrega em que me habitas.
Na noite.
Raquel

quinta-feira, 6 de Setembro de 2007

Fragilidade

Desceste a escada de madeira pisada pelo tempo. A tua mão apoiada no corrimão de ferro pintado de branco desenhava o caracol perfeito da descida. Eu via a tua mão e a languidez da tua mão e via o teu corpo na dormência – os candeeiros na parede iluminavam-te inteira. Descias romanticamente: os teus movimentos confundiam-se nas formas macias e aveludadas do papel de parede. Algodão doce. Tu pertencias ao espaço – de forma envolvente – tu eras o espaço, porque o espaço era teu.
A tua casa.
Desceste a escada de pinho pisada pelo tempo. Os teus pés eram a suavidade dos saltos agulha a suportar o peso da tua existência. E o gato enrolava-se nas tuas pernas à velocidade em que descias. O instante de desceres cada degrau era igual ao instante do gato a espreguiçar-se do sono. Eu via as tuas pernas magras bambolear nos saltos e o gato a enroscar-se em ti, na descida acutilante da escadaria que se impunha – eu via-te toda porque eu era os teus olhos a conhecerem-se por dentro na iminência do exterior.
A tua casa.
Desceste a escada de verniz pisada pelo tempo. O teu corpo era a transparência pudica da carne no momento em que se entrega. E os teus ossos davam-se a cada valsa de um passo. O teu corpo deslizava como um caracol perfeito na descida. Eu via cada movimento teu repetido a cada degrau: as tuas ancas estreitas oscilavam mecanicamente. As tuas ancas eram o ondular do gato a esfregar-se na rendição de um toque teu. Eu via porque eu era o teu vestido plissado e o dia em que compraste o teu vestido plissado. Vermelho escuro. Eu via-te porque eu era o teu gato e cada instante de candura na simplicidade de te relacionares com ele.
Caminhaste até às begónias – o teu jardim – enquanto o vento se agitava nos cabelos na tarde outonal. O gato deitou-se à sombra indolente da árvore de tantos dias, a ronronar na preguiça. O gato impregnado de ócio, dilacerado pelo infinito da tarde que cai, o gato deitado à sombra antiga da árvore do jardim foi a última vez que os teus olhos o viram.
Mas ele lembra-se de ti mais tarde: as tuas mãos caíam pesadas no fim dos braços cansados. Os braços cansados ruíam ao longo do teu corpo, estéreis, vazios, ocos de vida. E os teus pés, os teus pés não tinham os degraus da escadaria de madeira de pinho envernizada para te suportar, para suster a tua existência, para te amparar. As tuas pernas já não hesitavam na firmeza dos saltos agulha - havia leveza nos gestos. O teu corpo era o teu vestido franzido de ancas infecundas a rodopiar à força do vento – o vento enforcado nessa tarde de Outono.
E a tua cabeça tombava sobre o ombro.
Eu não te vi. Desse instante só sei o que ficou gravado em ti, pela certeza da sua imagem, enquanto descias as escadas. Tu sabes como acaba o caminho quando o caminho que escolheste é a única certeza que carregas dos dias. Tu sabes do fim, da imagem de ti no fim quando o premeditas, quando o antecipas, quando o desejas até à corda.
Eu não te vi. A última lembrança que eu tenho é a última que a tua mente quis alcançar depois da visão do gato deitado à sombra. Na última lembrança era noite e o vento assobiava baixinho. As únicas luzes vinham da televisão a preto e branco, que animava o serão. Era noite de bolachas e chá de limão em cima de um banco, em frente ao sofá. Encostavas-te nele com a suavidade de quem segura uma chávena cheia e tapavas as pernas com a manta de retalhos. Eram horas quentes feitas de açúcar e manteiga, em casa da avó. Tinhas uma boneca de trapos ao teu lado que se confundia com os retalhos da manta que te aquecia. E o ar agitava-se lá fora. Tu ouvia-lo porque o silêncio te ensinou a ouvir e tu aprendeste. Eras criança e tinhas medo do vento, mas havia o conforto de uma manta de retalhos que te fazia esquecer. E havia braços velhos e mornos a suportar toda a fragilidade.
A tua última recordação.
Eu sei-a porque eu sou a tua memória. Eu sou aquela que ficou suspensa no instante de a abandonares. Eu sou tudo aquilo que não quiseste lembrar, tudo aquilo que já não podes lembrar. E desvaneço-me nua e desmembrada na agitação da tarde de todos os vendavais – em que me deixaste.
Perdeste o medo do vento?
Raquel

domingo, 26 de Agosto de 2007

"A ciência resolve problemas, mas nada resolve o Problema. Escrever é descobrir que para certas coisas a ciência é inútil, que a poesia vive dessa inutilidade, e que só por isso é preciso continuar a escrever."

Eduardo Prado Coelho

Raquel

quarta-feira, 22 de Agosto de 2007

Vem Sentar-te a Meu Lado e Diz-me

Sabes o que permanece quando o quadro quebra na incerteza da imagem que traduz?
Sabes o que resta quando os lábios não dizem nada?
E quando há mãos atadas por laços que desatam, sabes o que sobra?
Sabes o que fica da corrente salgada nos cabelos quando não há ninguém para os pentear?
Sabes o que subsiste no momento em que já nada subsiste?
Sabes o que fere?
Sabes o que se detém quando rasgas as palavras que folheaste toda a vida?
E se adormeces e não há braços para me segurar, para sustentar o meu peso, para me proteger, sabes o que resta?
Sabes o que sobeja antes e depois do conforto de um gesto?
Sabes o que fica se não estás?
Sabes do grito quando o copo do antídoto se estilhaça no chão?
E sabes do silêncio de não teres voz para gritar?
O que subsiste do grito depois de o silenciares?
E do silêncio depois de o gritares, o que subsiste?
O que permanece depois do amor?
Depois do afecto, o que permanece?
Sabes o que fica se a lâmpada rebenta na noite?
Sabes o que se mantém no instante de me desejares de forma tão transparente?
Na clareza tão explícita de me quereres, sabes o que se mantém?
Sabes o que sobrevive de nós quando digo que o teu significado não passa dos meus lençóis?
Sabes o que dói na mentira?
Sabes o que resta quando o vento apaga as pegadas de um trilho?
E quando as pegadas são a única marca do trilho que te conduz perdido até casa, o que te resta?
Sabes o que perdura no espaço?
E o que sobra da boca rasgada de sorrisos?
O que fica de um olhar?
Sabes o que persiste da ausência?
O que teima na perseverança?
E o que revive indefinidamente no fim, sabes?



O vazio. Sempre o vazio.
Raquel

terça-feira, 7 de Agosto de 2007

Na Procissão

Trazias um vestido preto com sinais de tempo.
O teu vestido preto era o fecho antigo ao longo das tuas costas.

Eu ia atrás de ti.

O tempo era o teu cabelo branco caído sobre o vestido.
O teu cabelo branco apanhado num dos lados por um travessão de prata.
O travessão de prata com brilhantes que desenhavam flores.
O teu travessão.
O teu travessão desenhava malmequeres de prata.
O teu cabelo branco era prata em malmequeres, porque os meus olhos viram.

Eu ia atrás de ti.

Trazias um vestido preto com sinais de tempo.
O teu vestido preto era o dia em que tiveste de fazer o teu vestido preto.
O dia era o instante que não consegues esquecer.
O instante era o momento da fragilidade.
Da fragilidade
Da dor
Sepultada no peito.

Eu ia atrás de ti. E nunca te vi o rosto, viúva.

Raquel

sexta-feira, 27 de Julho de 2007

Cofre

E ainda assim havia tempo.

Dentro da mala, na carteira, como um cofre: havia tempo.
O tempo concreto de te dizer que sempre fizeste todo o sentido. Que as muralhas construídas existem ainda, mesmo que vás. Que as palavras ficaram como segredos na memória. E que as lembranças não foram com a maré. Tu não te desvaneces em mim como as lágrimas de sal na minha pele. Farás sempre todo o sentido.

E ainda assim havia tempo.
Dentro de nós, como um cofre: havia tempo.
E algo mais.
Raquel

terça-feira, 17 de Julho de 2007

Caem como setas a meus pés

Os dias.
Caem como setas a meus pés.
E fica espetado no meu corpo o desejo de instantes a sós, porque a solidão me faz falta.

E falha a coragem de um grito,
Quando a voz rebenta por dentro no sufoco de calar os dias que caem – bem longe.

A sós.
Raquel

sábado, 7 de Julho de 2007

Encostada ao Tanque, ao Lado da Porta

Correntes de lava no quintal e pétalas de papoila pisadas por pés de prata polida no chão duro de pedra.
E sopra o vento, assobiando de desgosto na tarde que cai.
Do portão para dentro, a existência é o lençol branco estendido no cordão gasto de muitos lençóis – a existência paira no cordão levantado para cima pelo pau alto de levantar lençóis no ar, onde o vento sopra diferente.
No tanque vazio, aquecido pelo sol que se põe, dorme o gato silencioso no momento do sono a roçar a saudade – dorme o gato preto de manchas brancas encolhido no ronronar do tanque de pedra.
E sopra o vento, assobiando de tédio na tarde que cai.
Ao lado da nespereira em flor, traços a tinta de tijolo desenham brincadeiras no chão em jogos de saltos e tranças compridas – há sorrisos pintados no chão do quintal.
A existência é o gato branco de manchas pretas a despertar dentro do tanque de pedra. No tanque seco e arrefecido do sol que se põe na imponência da noite – espreguiça-se o gato na fome.
O lençol bordado à pressa, estendido no cordão velho de outros dias, esvoaça lá em cima, auxiliado pelo pau alto de levantar lençóis no ar – porque o vento o envolve, enleia-se o pano branco com renda branca no cordão de sempre.
Há um canteiro com flores logo à entrada.
E uma bicicleta de passeios por caminhos de ferrugem e pó – encostada ao tanque, ao lado da porta da cozinha. A bicicleta ao lado da porta pequena de madeira colorida por azul céu.
E sopra o vento, assobiando de frio na noite sem estrelas.
Do portão para dentro brotam papoilas entre as fissuras da pedra do chão do quintal, onde o gato desliza.
Nada mais se impõe.
Só correntes de lava e pétalas de papoila pisadas pelos teus pés de prata polida no chão duro de pedra do meu quintal.
Só isso me faz frente.
Raquel

terça-feira, 3 de Julho de 2007

Corres

Corres.
Eu sei que tu corres.
O som do teu movimento é o ruído pesado dos tacões altos de verniz na madeira oca e moribunda. Como uma ruptura no silêncio abre-se o chão a cada passo teu – através do peso da tua existência toda apoiada nos teus sapatos ocos na madeira de verniz.

Corres.
Eu sei que tu corres porque eu vejo os teus cabelos desenharem figuras geométricas no ar à velocidade do pássaro que desliza agora à frente dos meus olhos. Abrem-se horizontes quando os teus cabelos desenham o pássaro que desliza à velocidade da geometria no ar.

Corres porque o chão trepida por baixo à tua passagem e a respiração é o motor na sequência dos teus movimentos. Mas as nuvens, lá fora, hão-de bloquear-te a saída: aqueles braços não chegam esta noite. O tempo cingiu-se à factualidade do tempo correr enérgico sobre ti.

Corres para os braços partidos.
Partidos pelo peso da geometria da vida.
Da vida existir à velocidade do pássaro moribundo que voou.
Voou no instante de pousar sobre os meus olhos.

Corres – para os braços partidos que não chegam esta noite.
Raquel

sexta-feira, 22 de Junho de 2007

Próxima paragem: Entrecampos

- Onde vais?
- Vou para casa.


E as portas são escotilhas a fecharem-se sobre nós. Portas de ferro a caírem como machados sobre as palavras que eu não disse.
Despedida.
Portas de ferro a caírem sobre as palavras como machados que ficaram por dizer.


- Vem comigo.

Raquel

quarta-feira, 13 de Junho de 2007

O Fundamental da Intencionalidade

Ontem, no sofá, adormeci no tédio de esperar-te.

E havia o teu cheiro de outros dias na almofada, como uma certeza de que ainda podias chegar a tempo – a tempo de tocares as minhas mãos e eu dar-me inteira por dentro.
Dar-me até conheceres a arquitectura do meu corpo como se fosse a nossa primeira descoberta. Lembras-te da nossa primeira descoberta juntos?

E tentas compreender tanto.

Deixa-te envolver no espaço de um movimento meu, sem pensares.
Não procures palavras: irias chamar-lhe talvez _________ – chamar-lhe apenas _________ (desejo) – até eu te morder a língua e beber do teu sangue, porque a saliva não basta. Irias chamar-lhe, talvez, desejo – até eu te fazer hesitar na dor de te rasgar as certezas todas que trazes nos bolsos das calças, e tu então chamares-lhe apenas _________ – chamares-lhe apenas _________ (amor).

Porque é que tentas compreender tudo?

Podias ter abandonado o som do piano e os livros e os teus pensamentos sobre nós, sobre a minha etimologia e o meu carácter – personalidade – sobre o sabor da separação. Podias ter abandonado o conforto de estares só, contíguo às tuas ideias, na certeza de esperar-te.

O silêncio faz o resto, dizes.
E, no entanto, nada pode fazer nada por nós, se tu não vieres a tempo de tocares as minhas mãos.
Raquel

domingo, 3 de Junho de 2007

Porto Per Poeti

Caminho para o porto dos poetas que não escrevem.
Há um porto dos poetas que não escrevem.
Os poetas que não escrevem têm um porto.
O porto dos poetas que não escrevem – para o qual caminho,

[enquanto o vento não mudar de direcção.

E hei-de atracar até a inspiração se dissipar,
Ancorada pela renúncia aos sonhos - até a inspiração se dissipar – a caminho do Sul: na sombra dos pássaros.

Eu sigo o trilho do vento no mar: rota dos poetas que não escrevem.

E hei-de atracar até não sobrar nada.
Ancorada pelo absurdo da existência – até não sobrar nada – volúpia do que ficou depois dos pássaros: ausência.

Caminho para o refúgio dos poetas que não escrevem.
Há um refúgio dos poetas que não escrevem.
Os poetas que não escrevem têm silêncio entre dedos.
O silêncio é o refúgio – para o qual caminho,

[enquanto o vento não mudar de direcção.

Eu sigo o trilho do vento no mar.
Eu sigo o trilho do vento.
No mar.
E juro-te, pela certeza do fim – que hei-de ser alma de capitão.
Raquel

domingo, 27 de Maio de 2007

Por Dentro da Infixidez

Convence-me de que a minha força não morrerá contigo.
E repete-me vezes sem conta que ainda será possível mover as pálpebras depois de ti.
Diz-me – até a tua voz ser um eco – que as lágrimas hão-de cair como um corpo de pedra em desequilíbrio.
Jura-me que as lágrimas hão-de secar.
Jura-me com todo o artifício: que as lágrimas hão-de secar como tu.
Como tu – depois da vida.
Convence-me, confundindo-me de comparações vazias,
de que a minha força não morrerá contigo.

Até eu fazer de conta que acredito.
Até eu sufocar na aparência.

Raquel

segunda-feira, 21 de Maio de 2007

As Estátuas Também Brilham

Sem haver tectos para me resguardar, chovia a cântaros na minha vida.

E eu estava sentada – à hora marcada.

O meu cabelo era o brilho da chuva depois do sol, antes das nuvens.

E os movimentos do meu corpo eram estátuas em sonhos ardentes.

Sem haver tectos para me resguardar, chovia sobre mim.

E eu estava sozinha – debaixo do céu.

Os meus lábios eram rosas pétala a pétala desfolhadas, levadas pela chuva como um rio.

E os movimentos do meu corpo eram estátuas em êxtase.

Sem haver tectos para me resguardar, chovia a cântaros na minha vida.

Mas só até tu chegares.

Só até tu chegares de ramo de girassóis na mão.

De ramo de girassóis na mão – para me dar.

Eu estava sentada, sozinha, à hora marcada – debaixo do céu.

E fez-se sol em mim.




Ele contou, depois, que ela só tinha começado a falar por causa da lembrança dos pássaros. Ele contou que o sorriso dela se tinha inclinado todo para a direita – tortuoso, sinuoso – enquanto caminhavam lado a lado. Ele contou que a chuva era ouro vindo do céu.
Raquel

domingo, 13 de Maio de 2007

Sem Título

«Arrefeceste tanto em tão pouco tempo do tempo que a vida te deu.
E podias ter dito que as nuvens são instantes suspensos no céu, até eu te entender. Podias ter falado da efemeridade. Tê-la aplicado por analogia, talvez. Podias ter escrito sobre isso. Tu sabes que eu devoraria cada palavra tua. Tu sabes isso tão bem, porque é que não escreveste? Podias ter explicado a brisa ao pormenor. A sua trajectória exacta. Brisa: o teu nome sussurrado. Podias ter explicado o teu caminho, até eu te entender.

Eu tinha o mundo para te dizer, Raquel.
Porque é que não falaste comigo?

Arrefeceste tanto em tão pouco tempo do tempo que a vida te deu.
E podias ter dito que as ondas se desfazem na areia, até eu te entender.
Podias ter aberto a porta. Ter-me-ia bastado olhar-te para diagnosticar toda a dor que percorre o teu corpo. Porque é que fugiste? Podias ter sorrido. Tu sabes que eu conheço todos os teus sorrisos de cor. Tu sabes isso tão bem. Porque é que não sorriste, Raquel, até eu entender o significado mais profundo dos teus lábios?

Eu tinha o mundo para te dizer - e uma aliança no bolso.
E o mais efémero instante - desse tempo - tão pouco - que a vida te deu
bastaria.

Eu tinha o mundo para te dizer, Raquel – e palavras ensaiadas na língua.
E o mais efémero instante – desse tempo – tão pouco – que a vida te deu
bastaria.»





Há um precipício na noite.
E abutres.
Abutres à espera de coragem.
Ou desespero.
Abutres à espera de um estímulo.
Um passo.
Há um precipício. Aqui. À minha frente.
Lançar-me
Seria a única forma de entenderes o significado do que não disse.

Porque é que não entendeste tudo aquilo que ficou por dizer?
Eu podia desconstruir o teu amor aqui – agora.
E arrefecer-te.
E quebrar-te.
E desconstruir-te.
Porque há um precipício na noite.
E abutres.
E tanto, em tão pouco, por dizer.
Raquel

segunda-feira, 7 de Maio de 2007

Hoje, as minhas palavras não são suficientes. Hoje, mais que nunca, as minhas palavras não são suficientes - para dizer.


«A escrita é a minha primeira morada de silêncio
a segunda irrompe do corpo movendo-se por trás das palavras
extensas praias vazias onde o mar nunca chegou
deserto onde os dedos murmuram o último crime
escrever-te continuamente... areia e mais areia
construindo no sangue altíssimas paredes de nada

esta paixão pelos objectos que guardaste
esta pele-memória exalando não sei que desastre
a língua de limos

espalhávamos sementes de cicuta pelo nevoeiro dos sonhos
as manhãs chegavam como um gemido estelar
e eu perseguia teu rasto de esperma à beira-mar

outros corpos de salsugem atravessam o silêncio
desta morada erguida na precária saliva do crepúsculo.»

Al Berto
O Medo

sábado, 28 de Abril de 2007

Húmus

O céu vai ficar parado no instante de eternidade das sombras sobre mim. Suspenso na lembrança dos meus cabelos, o único movimento virá dos olhos dos pássaros - estrelas de água em queda sobre o manto de terra no meu caixão.
No dia do meu enterro, a música será o choro dos cães ao longe na certeza da minha ausência. A convulsão das suas lágrimas será por mim, pela suspensão eterna, sempiterna do meu amor. Como uma seta a demorar-se no peito - saudade.
Se tu passares por mim, nesse dia em que o céu ficar parado, leva de mim os meus sonhos guardados no silêncio da espera. Só então poderás ver a derrota que eu levo do mundo por ele não entender
que os animais são almas atadas numa linguagem indizível.
Leva de mim os meus sonhos e grita ao mundo
que os animais são almas atadas em fios de metal
Que eu sozinha não consegui destrinçar.
Grita tanto quanto a minha voz gritou
e desata-os dizendo-os.
Leva também de mim a lembrança dos meus cabelos e do meu sorriso depois do beijo. Mas peço-te, se passares pelo meu caixão no dia do meu enterro, leva de mim os meus sonhos e guarda-os, grita-os, desata-os do medo. Leva os animais todos contigo, leva a fragilidade enternecedora dos animais no peito, que eles chorarão por ti.
E guarda o que sobrou do meu amor em algibeira.
Raquel

quinta-feira, 26 de Abril de 2007

Acto ou Efeito de Pulsar

150 a 170 vezes o teu nome repetido
Nas paredes que nos guardam
Como segredos.

Do batimento do coração – meu,
Drena o sangue - tinta - nas paredes
Como veias.

E a minha respiração é
A turbulência
Taquicardíaca da tempestade lá fora.

Pulsação.

Da minha boca
Como do meu coração
Em sangue irrigado nas paredes
Quantas vezes o teu nome repetido?

150 a 170 por minuto.

Conseguirá o mundo
Nas paredes pintado
Guardar-nos como segredo?

Coração.

Raquel

terça-feira, 24 de Abril de 2007

À Lareira dos Dias

Pés quentes
até às cinzas.
Raquel

sábado, 21 de Abril de 2007

Bebe-me

Entorno-me no mais insidioso de ti
Desconcertada da inclinação do sopro.
Entorno-me
Como se fosses copo
Como se fosses vidro
E me pudesses segurar inteira.
Inclino-me no mais pérfido de ti
Como pau espetado na terra a ver os movimentos da sombra.
Desconcertada pelo sopro
Entorno-me insidiosa.
Basta um pouco mais de fôlego, um pouco mais de __________
E o copo transborda
Na vertigem
Do sopro
Da inclinação
Desconcertada.


Raquel

quinta-feira, 19 de Abril de 2007

Há um corredor.
Ao fundo: duas portas.
À direita uma porta.
À esquerda outra porta.
Escolhe.
Ao fundo do corredor há
duas portas.
Uma porta à esquerda.
Outra porta à direita.
Gritos e uma promessa.
Veneno.
O corredor
tem duas portas.
Em qual vais entrar?
Raquel

domingo, 15 de Abril de 2007

Silêncio entre Vírgulas

Há pássaros em bando no céu e a noite cai lentamente sobre a terra. Como cortina que desce, a noite precipita-se sobre nós. O vento que corre como brisa tem o som dos pássaros a existirem no céu. Os candeeiros dobram esquinas e há luz quente no ar – ouro velho a iluminar a terra.
Sentada no jardim – descasco uma laranja. Descasco-a como quem despe – como se te despisse. E fica o teu cheiro nas minhas mãos depois de a comer. Alguma vez pudeste sentir outra coisa destas mãos que não fosse amor? Há cheiro a laranja e há ouro velho nas ruas debaixo do céu. Há cheiro a ouro e laranja nas ruas debaixo do céu. E há silêncio entre nós. Há silêncio na tua boca, entre as tuas palavras. Há , _________ , entre dentes. E existo eu, cá fora. E há ,_________, entre dentes. Há silêncio entre nós – não somos mais do que o grito do farol ao longe.

Os grilos cantam esta noite.

Procuro a chave caída no chão – tranco a porta – e vou rua fora. Ninguém, não oiço vozes nem passos. Só o farol ao longe. E o sino – nove badaladas. Há candeeiros nas esquinas como setas a indicar-me o caminho e eu vou.
Entro.
O chão está limpo. As paredes brancas: cal. As loiças brilhantes de pó. Pendurado acima do balcão um quadro em tudo semelhante a uma tela de Storck da qual nunca me lembro do nome. O ar está sujo, negro e baço.
Sento-me defronte para a porta e peço um chá. Limão. Tiro o casaco e retoco o batom. Há olhos a verem-me. Os meus olhos vêem olhos de homens a verem-me. Há olhos de homens a ajudarem-me a despir o casaco. Olhos de homens a borrarem o batom na minha boca.
O chá. Obrigada.
Açúcar. O tilintar da colher na chávena. O barulho ensurdecedor das conversas. O tilintar da colher na chávena. O barulho ensurdecedor dos risos. O tilintar da colher na chávena. O barulho do barulho ensurdecedor dos homens nos cafés.
E
silêncio
subitamente.
Só o tilintar da colher na chávena de chá.
Apenas o tilintar da colher na chávena de chá.
O tilintar da colher na chávena de chá.
A colher na chávena de chá a tilintar.
Levanto a cabeça como quem procura a resposta: tu. Açúcar dissolvido. Tu. E os homens a saberem tudo. Trazes na mão a pasta – pele – que te ofereci no último aniversário: vens do trabalho. E trazes nos olhos a ânsia por um café. Precisas que te percorra os cabelos com os dedos ao fim do dia. Há quantos dias deixaste de pedir que te percorra os cabelos com os dedos ao anoitecer? Oiço-te ao balcão – café. E deixo o dinheiro do chá meio bebido em cima da mesa. O instante em que visto o casaco é igual ao instante dos meus olhos parados sobre o céu na efemeridade dos pássaros.
Saio.
Há ouro velho nas ruas a iluminar-me o caminho – candeeiros. E o som do farol ao longe. Há os meus passos e o eco dos meus passos na confusão da noite. Procuro a chave no bolso do casaco e entro. Subo as escadas apressadas em direcção ao quarto. Dispo-me ofegante: a roupa no chão como tapetes. Sento-me no sofá branco junto à janela entreaberta do quarto. Os meus olhos vêem através da janela. Os meus olhos vêem o céu como uma cortina opaca fechada sobre a terra e a luz quente do candeeiro, lá fora, a iluminar ninguém. A lua: quarto crescente.
Tenho a certeza que vens.
O tique-taque, tique-taque, tique-taque, tique-taque, tique-taque, tique-taque do despertador denuncia a passagem do tempo. O sino: doze badaladas. Continuo à espera de ouvir a chave na porta. Continuo à espera de ouvir o trinco a abrir. Continuo à espera que subas as escadas, entres pelo quarto e me abraces com força. E me beijes. E me desarrumes toda de prazer e de perdão. Sim, ainda espero que me perdoes.
Nua no sofá branco junto à janela – adormeço. E há lágrimas dentro de mim. Como orvalho pela manhã, há lágrimas por dentro. Também há o sol – cortina a subir de uma noite que foi toda (inteira) dos grilos a cantar. E há ainda o, _________, entre dentes – o silêncio entre nós - precipício.
Descasco uma laranja.
Raquel

sábado, 14 de Abril de 2007

Este poema é teu

Quero dizer-te.

Mas as palavras nunca serão suficientes. Nunca terão a intensidade simples e imaterial do momento em que me dou: metafísica.
Dizer-te que tu és aquele

Ser único e transparente

Que me faz sentir o meu corpo como o corpo que é teu – que a ti pertence – nunca será suficiente.
Repetir-te vezes sem conta que tu és o verbo mais musical da minha boca. Que tu és o som e a métrica em mim. Que tu és a força da frase na minha língua. Que tu és o ritmo mais volátil das palavras: adjectivo.
Dizer-te que tu és aquele

Ser feito de luz

Que me consome e me transcende – que permaneces em mim para lá da ausência, para lá do tempo, para lá da saudade – nunca será suficiente.
Repetir-te todos os dias da minha existência que tu és o murmúrio mais gritante da minha voz. Que tu – tu – és a anástrofe mais perfeita. Que tu és a palavra mais rasgada e mais brilhante dos meus olhos. Substantivo.
Dizer-te que eu

Sou tua

Nunca terá a intensidade simples e imaterial do momento em que me dou.
Raquel

segunda-feira, 9 de Abril de 2007

Tu - sol.

Eu - girassol.

E há música entre nós - saxofone.


Raquel

Páscoa

As melhores amêndoas desta Páscoa:

«Olá! Eu sou o João e vou escrever um texto sobre a minha madrinha.
Primeiro de eu começar o texto quero dizer que ela é espectacular.
A minha madrinha é bonita, elegante, alta, magra, simpática e divertida.
Sempre que quero fazer algum jogo ou ir a algum lugar ela pode ir comigo, quando pode e quando pode oferece-se logo.
Ela também é persistente, principalmente nos estudos.
Ela às vezes está mal humorada, mas sei que ela gosta muito de mim e eu gosto muito dela porque ela é a melhor madrinha do mundo!»
Do João, meu afilhado.

sexta-feira, 6 de Abril de 2007

Alma de Sabão

Era Julho. O sol ardia os olhos – inflamava. O ar era feito de ondas de sol, correntes de calor: bafos quentes. Pegaste no balde preto de plástico que tinhas junto ao cão, no quintal. O cão deitado à sombra – inerte. O balde cheio de água, à sombra, com margaridas brancas. Um ramo enorme de margaridas brancas atadas com cordão. Deste-me um pano já cansado do caminho e detergente, que segurei religiosamente nas minhas mãos. Nas minhas mãos pequenas. Ao sairmos fechaste o portão cinzento com força, com barulho – não fosse o cão sair. Descemos a rua. Podíamos descer a rua de olhos fechados – a rua já nos conhece. A rua sabe para onde vamos e leva-nos embaladas. Assim que passamos o portão de ferro chegamos. Eu passei o portão de ferro: cheguei. O porteiro não se vê mas sente-se. Peço-lhe licença para entrar. Corro. Corro sempre em direcção àquilo que conheço – sei exactamente o sítio para onde vamos e o que vamos fazer. Corro como quem brinca e vou feliz. Chego primeiro, vens mais atrás. Caminhas no teu passo de mulher que trabalha tanto. Olho para ti ao longe e grito-te a dizer que cheguei, que cheguei primeiro, que cheguei antes de ti. Sorris. Olho para ti a aproximares-te: tens rugas e és bonita. Pousas o balde no chão e pedes-me para ir buscar água em baldes pequenos, outrora de tinta, que estão à entrada, junto ao portão. Eu sinto-me importante porque me sinto útil e vou. A água na torneira corre enérgica, ruidosa ao cair no balde. Balde que vai meio cheio. Já tinhas tirado as flores velhas e a água suja, quente. Molhas o pano na água que te trouxe, pões sabão – há bolhas de sabão no ar por um instante – e começas a limpar. Esqueces-te sempre do essencial para mim, por isso é que, enquanto preparas as margaridas brancas e as distribuis simetricamente, eu agarro no pano e acabo o trabalho. Limpo a imagem de Jesus na cruz até brilhar e dou-lhe um beijo. Parto o caule de uma das margaridas até ficar bem curto, bem pequeno, até a margarida ser só pétalas brancas e prendo-a junto à cabeça tombada de Jesus na cruz. Depois limpo a fotografia do avô e dou-lhe um beijo. Para mim é o mais importante – esqueces-te sempre do mais importante. Como retoque final enches o balde preto de plástico com água que lanças na campa branca do avô. Enches o balde de plástico preto com água que lanças na campa modesta do pai dos teus filhos. Enches o preto e plástico balde com água que lanças na campa eterna do teu marido. Colocas o detergente – sabão – e o pano no balde. Sou eu quem o leva agora para cima. Sacodes os pés, bates os pés e eu imito-te. Ao sair do portão sorrio ao porteiro que não se vê, como quem agradece a estadia. E sigo. Vens mais atrás. Olho para ti e és uma mancha escura na claridade. Subimos a rua. Podiamos subir a rua de olhos vendados – a rua já nos conhece. A rua sabe para onde vamos e empurra-nos. Abriste o teu portão cinzento com barulho – força – e o cão saiu. Pousei o balde no quintal. Era hora do lanche.
E este foi só mais um dia entre muitos dias iguais a este. Dias em que tu, já cansada do caminho, desces a rua e levas o balde, o pano e as flores contigo. Mas neste dia era Julho. Era Julho no seu esplendor: o sol ardia em chamas nos olhos. O ar era feito de ondas de calor, correntes de sol – bafos quentes. E eu ia contigo.
Raquel

quarta-feira, 4 de Abril de 2007

Amor
O cano quente da arma na tua boca fria - o gatilho.
Amor e
(pólvora)
Raquel

terça-feira, 27 de Março de 2007

Sepultei Todas as Rosas

O cenário era cinzento: havia pombos.
Havia nuvens.
Havia vento a entrar pelas frestas da porta de madeira: frio. Como facas espetadas na porta de madeira: o frio. Pedaços de vento levantavam, lá dentro, o pó e a palha no ar até caírem cansados, confusos. A chama das velas gastas, quase sem pavio, ameaçava apagar. Tremia, soluçava, hesitava. Nas paredes o suor, como cera, deslizava lentamente até secar. Nas paredes as aranhas. As paredes: teias de cera de suor de aranhas. No chão um cobertor e sacas de milho. Sacas de trigo. Sacas de farinha. Sacas de pão. E rosas.
Espalhados pelo chão: restos. Um par de botas – camurça. Um par de sapatos pretos de salto: verniz. Meias pretas de vidro entre o pó. O casaco branco. A saia preta. A blusa branca. Grãos de milho. Calças de ganga. A camisa às riscas. A camisola de lã. Pombos. O soutien. Rosas vermelhas.
As tuas,
as minhas
cuecas no chão entre a palha. Entre o pó.
E o vento gemia – lá fora, cá dentro.
Havia frio a entrar pelas frestas da porta de madeira: vento. Havia duas garrafas de vinho: tinto. E uma navalha.
Peguei numa garrafa enquanto te desfazias de álcool e de prazer. Enquanto vibravas, vermelho, inchado. Enquanto te desfazias como as velas, quase sem pavio. Sémen. Peguei numa garrafa enquanto não paravas extasiado. Não paravas extasiado e eu peguei numa garrafa. E o vento gemia cá dentro. Mas só até tu caíres de mim, no chão, erecto – como o pó e a palha depois do vento.
Olhei para ti.
Inerte no chão podre do moinho - peguei na tua mão.
Depois peguei na navalha.
Cortei-te um dedo – que lancei aos pombos. E cortei-te outro, e mais outro. Golpeei-te na barriga. Uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez, onde, doze vezes. E agora? Continuas extasiado?
Espalhados pelo chão: restos. Camurça, verniz, sangue. Vidros.
Havia milho, trigo, farinha. Havia pão e dedos. Havia rosas vermelhas secas – mutiladas.
Ao lado do moinho, com a enxada, cavei um buraco na terra. Fundo.
Fui buscar as rosas. Nua.
Uma a uma lancei-as para o buraco e com a enxada enterrei-as – com carinho. Muito carinho. Por cima espalhei grãos de milho. O cenário era cinzento: havia pombos.
Vesti-me calmamente. Tirei os poucos e reles tostões que tinhas no bolso. Apaguei as velas. Fechei a porta do moinho.
Havia nuvens e escurecia.
As minhas mãos eram espinhos. Tu eras carne coberta de espinhos.
Fiz-me à estrada e pedi boleia.

- Pena que as rosas morram.
Raquel
Hoje.
Como Raquel. Não como Inês Pereira, não como Castelhano, não como Marta - a mansa, não como anjo redentor que declama Sophia, não como Catarina Eufémia, não como Morgadinha dos Canaviais, não como as dezenas de personagens que já construí. Hoje - apenas como Raquel - celebro o Dia Mundial do Teatro.
E sinto falta de me reinventar. E sinto falta do nervosismo de entrar em cena, ainda que em palcos tão soturnos e tão gastos de ninguém. E sinto falta das palmas. E sinto falta da cortina a fechar.
Eu gosto de Teatro. Eu gosto de fazer Teatro. Eu gosto da gente do Teatro.

Raquel

segunda-feira, 26 de Março de 2007

Sola de Couro

Sei os teus passos de cor.
O som - distância concreta dos teus passos - sei decifrar.
Caminhante.
Perdido.
Vagabundo.
Descalço de pés e de sonhos.
Os teus passos são


Música
Raquel

Eu reparei

Primeiro foi o marido. Depois foi o filho. Ela ficou, poupada por uns anos pela morte.
Agora, só, resta ela e o gato.
E senta-se no banco do jardim todos os dias da sua vida em que faz sol. Sol que lhe aquece os ossos. Velha viúva de chinelos pretos que te sentas sozinha no jardim. Todos passam por ti e ninguém repara.
Porque és velha.
Porque és viúva.
Porque és triste.
Porque és inútil.
Porque és sozinha e nada te sobra.
Porque não passas de uma sombra - sombra sentada à espera do pôr-do-sol.

Velha

Velha

Velha

Velha

Inútil

Velha

Nem o gato precisa de ti.

Raquel

terça-feira, 20 de Março de 2007

Azul

Na cabeça o véu: branco, bordado. A minha mãe fazia questão de um penteado especial. Tu querias o meu cabelo solto, simples, sem poesia. Deixei o cabelo como tu mais querias.
Nessa noite levaste-me a ver o mar.

Ar. Inspiro, expiro. Inspiro, expiro. Inspiro, expiro. Ouves a minha respiração - brisa. Escutas o silencio que antecede a minha boca na tua. É melodia o som de me aproximar?
Saliva. Sabes a nicotina, tens sabor a café. Da minha língua prova o chocolate preto do nosso bolo que amargou.
Vultos. Como ondulam os meus cabelos longos? Com quantas formas me desenha a noite? Vês-me inteira?
Carne. O meu vestido. Sentes-lhe a textura? As minhas pernas - carne. O meu vestido – seda. As minhas pernas: seda. O meu vestido – carne. A tua mão no meu vestido. A tua mão nas minhas pernas.
Maresia. Suor – cheiro a algas entranhado nos poros da nossa pele. Sinais do teu corpo no meu que arrefece. Memórias. E o nosso cheiro a embriagar-me a alma.
O nosso filho.

Antes de nascer já o desenhavas, perfeito. Cada dedinho um pormenor. E a boca pequenina e simples. Os olhos – brilhantes. Quando o nosso filho nasceu tu estavas ao meu lado, como em cada momento crucial da minha vida. Estavas ao meu lado e a minha força era proporcional à força do teu desejo de ter este filho. Nosso tesouro. Quantas imagens, quantas fotografias temos nós deste botão de rosa?
Aquela tarde de Verão em que ele adormeceu ao meu colo no jardim e tu foste buscar a tela, marido pintor. Essa é a minha imagem mais bonita.
Pintaste-nos com todas as cores, realçaste o ondular do meu cabelo ao vento. E o nosso bebé perfeito e delicado de encontro a mim. A minha pele. A pele do nosso filho: algodão. Pincel. E o teu sorriso de estrelas a encandear-nos.
Anda, vamos fazer outro filho.
Raquel

domingo, 18 de Março de 2007

Restaurante do Desalento

Prato(s) do dia:

Desilusão com salsa e coentros picados confeccionada com fios de azeite, lágrimas e cebola.
Desilusão com especiarias a precisar de uma pitada de sal. E de pimenta, muita pimenta.
Desilusão regada com sumo de limão.
Desilusão acompanhada de dor aos cubinhos a precisar de beijos. E de sal, muito sal.
Desilusão com polpa de tomate e lágrimas.
Desilusão com alho.
Desilusão com ovo e batata frita.
Desilusão a precisar de

Sal

Pimenta

Desilusão a precisar de saliva.
Desilusão às postas com vinho branco a precisar de uma pitada de sal.
Desilusão a precisar da tua boca – pimenta.
Desilusão à lagareiro.
Desilusão à nó na garganta.
Desilusão à aperto no coração.
Desilusão recheada com pimentos sem beijos.
Desilusão simples – sem sabor.
Desilusão a precisar de

Sal

Pimenta

Ti.
Raquel

quarta-feira, 14 de Março de 2007

Hoje roubei todas as rosas dos jardins
e cheguei ao pé de ti de mãos vazias.

Eugénio de Andrade